A guerra bate nas pernas da mulher cão. O homem bala de fogo é pólvora negra que rebenta no cimo do abrigo. A mulher cão fareja a linguagem, a linguagem dos bichos da terra, do chão cinzento da seca, da morte do todo. O chão já morreu por aqui. Já não cresce nada. O futuro é daqui a pouco tempo. Na minha cabeça a melodia, a música que ouvíamos, a cinza dos foguetes da festa, o grito preso na garganta, a voz que se ensurdeceu de tanto ficar muda. Somos todos mudos nesta casa. Nesta cidade, neste país. Ainda agora sabíamos cantar. O peito rebenta, e dói e arde, e as letras esmagam- se, estão presas na garganta, doem nas entranhas, e o estômago também dói, da fome e da fartura e dos muitos comprimidos que irão curar o mundo, as pernas doem, e as mãos, e os dentes. Tudo dói por aqui. A luz está a começar a ficar fraca. Trouxemos muitas coisas para a viagem, temos a boca cheia de morte e de vida, de dor e de sangue, arrotamos em agudos e graves os acordes do horror, mas a carne ainda é nossa. A nossa carne, carne com carne, crua, fria, nua, onde ainda tudo é possível. É melhor esperarmos.








